quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Meu doce consolo...



Vamos, não chores...
A infância está perdida.
A mocidade está perdida.
Mas a vida não se perdeu.

O primeiro amor passou.
O segundo amor passou.
O terceiro amor passou.
Mas o coração continua.

Perdeste o melhor amigo.
Não tentaste qualquer viagem.
Não possuis casa, navio, terra.
Mas tens um cão.

Algumas palavras duras, 
em voz mansa, te golpearam.
Nunca, nunca cicatrizaram.
Mas, e o humour?

A injustiça não se resolve.
À sombra do mundo errado
murmuraste um protesto tímido.
Mas virão outros.

Tudo somado, devias
precipitar-te, de vez, nas águas,
Estás nu na areia, no vento...
Dorme, meu filho!

(C.D.A)

sábado, 25 de fevereiro de 2012

Meia noite


- “Você jogou fora, o amor que eu te dei, os sonhos que sonhei. Isso não se faz...”
(Aplausos... E risos quase sem fim)...

O relógio marcava pouco menos de meia noite, numa dessas noites em que o silêncio domina, com autoridade, o cenário do tempo e de nossa intimidade, só admitindo, em raríssimos atos, o breve sussurrar de coadjuvantes ventos circulares.
Eu me achava debruçada sobre algum escrito de Pessoa, Drummond ou Câmara, praticamente a sós com minha calma, não fossem as presenças de Thalya, a meus pés, implorando migalhas de carinhos e o estalar de dois ou três biscoitos a furtar-me o sono...
Quando, num sobressalto, interrompi qualquer leitura e me voltei ao som de um sem número de vozes, todas verdejantes, a entonar num uníssono quase ensaiado, os versos que ousei transcrever acima.
Era alguma canção, simplesmente. Um triste desabafo que alguém derramou no papel e que, naquele instante, experimentava uma suave alquimia, comum às composições musicais casadas com vozes de autênticos artistas e sob a bênção da lua.
Eram crianças que cantavam a dor do mundo crescido; Eram crianças que me convidavam a ter vontade de lágrimas;
Foram sons infantis que gritaram, em meio a sinceros e expressivos sorrisos, o esfacelamento dos encantos e cores da vida adulta...
Jogar fora o amor? Desfazer-se dos sonhos?
Ah, crianças... Inocentes crianças!
Meia noite é cedo demais para, num canto, contarem com entusiasmo, as chagas de quem cresceu...
E, assim também, antever o destino a que grande parte dos pequeninos está fadada!
Meia noite era cedo demais para vocês revelarem aos quatro cantos, num simples e antigo canto, segredos que guardei...
De que alguém descartou os sonhos, os amores e os sofrimentos meus...
Quisera minha voz se misturar às suas, quisera eu não ter desaprendido a linguagem da pureza;
Quisera eu ser compreendida ao dizer-lhes, com afinco e afeto, que me disponho a ajudar-lhes: seja cultivando sonhos, seja impedindo que alguém lhes roube, seja, enfim, aconselhando-os a jamais esquecer nobres esperanças em qualquer parte do caminho, só porque têm algum peso...
Oh, doces crianças...
Quisera eu ser suficientemente influente, para lhes transformar, tão desprotegidas sementes, em árvores de amar e sonhar...
Só para eu lhes poder ouvir, árvores, entonar o seguinte canto a qualquer sequestrador de sentires seus:
- Sinto dizer-lhe, mas seu relógio se atrasou! Meia noite é tarde demais para roubar-nos a doçura de ser gente grande e viver feliz! ...

(Risos... Aplausos... e pausa para sonhar!)


(Nilmara Carvalho)

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Segue...



Segue o teu destino,
Rega as tuas plantas,
Ama as tuas rosas.
O resto é a sombra
De árvores alheias.

A realidade
Sempre é mais ou menos
Do que nós queremos.
Só nós somos sempre
Iguais a nós próprios.

Suave é viver só.
Grande e nobre é sempre
Viver simplesmente.
Deixa a dor nas aras
Como ex-voto aos deuses.

Vê de longe a vida.
Nunca a interrogues.
Ela nada pode
Dizer-te. A resposta está além dos deuses.

Mas serenamente
Imita o Olimpo
No teu coração.
Os deuses são deuses
Porque não se pensam.

(Ricardo Reis)

Há doenças piores...



Há doenças piores que as doenças,
Há dores que não doem, nem na alma
Mas que são dolorosas mais que as outras.
Há angústias sonhadas mais reais
Que as que a vida nos traz, há sensações
Sentidas só com imaginá-las
Que são mais nossas do que a própria vida.
Há tanta cousa que, sem existir,
Existe, existe demoradamente,
E demoradamente é nossa e nós...
Por sobre o verde turvo do amplo rio
Os circunflexos brancos das gaivotas...
Por sobre a alma o ardejar inútil
Do que não foi, nem pôde ser, e é tudo.

Dá-me mais vinho, porque a vida é nada.

(Fernando Pessoa)

Deixei atrás os erros do que fui...


 Deixei atrás os erros do que fui,
Deixei atrás os erros do que quis
E que não pude haver porque a hora flui
E ninguém é exato nem feliz.

Tudo isso como o lixo da viagem
Deixei nas circunstâncias do caminho,
No episódio que fui e na paragem,
No desvio que foi cada vizinho.

Deixei tudo isso, como quem se tapa
Por viajar com uma capa sua,
E a certa altura se desfaz da capa
E atira com a capa para a rua.


(Fernando Pessoa)

** Os grifos são meus; muito meus...

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Ressuscitando...



Tantas vezes me mataram
Tantas vezes eu morri
Mas agora estou aqui
Ressuscitando

Agradeço ao meu destino
E a essa mão com um punhal
Porque me matou tão mal
 
E eu segui cantando...

Cantando ao sol
Como uma cigarra
Depois de um ano embaixo da terra
 
Igual a um sobrevivente
Regressando da guerra (...)


(Sigo assim, cantando... feito a cigarra de Renato Teixeira)

Paciência!


Paciência, 

Só um pouco mais de paciência...

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

O nome de muitos de nós...

Meu nome é medo


Meu propósito é dominar corações e mentes. Incutir em cada um o medo do outro. Medo de estender a mão, tocar em cumprimento a pele impregnada de bactérias nocivas.
Medo de abrir a porta e receber um intruso ansioso por solidariedade e apoio. Com certeza ele quer arrancar-lhe algum dinheiro ou bem. Pior: quer o seu afeto. Melhor não ceder ao apelo sedutor. Evite o sofrimento, tenha medo de amar.
Quero todos com medo da comunidade, do vizinho, do colega de trabalho. Medo do trânsito caótico, das rodovias assassinas, dos guardas que intimidam e achacam. Medo da rua e do mundo.
Convém trancar-se em casa, fazer-se prisioneiro da fragilidade e da desconfiança. Reforce a segurança das portas com chaves e ferrolhos; cubra as janelas de grades; espalhe alarmes e eletrônicos por todos os cantos.
Faça de seu prédio ou condomínio uma penitenciária de luxo, repleta de controles e vigilantes, e no qual o clima de hostilidade reinante desperte, em cada visitante, uma ojeriza ao prazer da amizade.
Tema o Estado e seus tentáculos burocráticos, os pesados impostos que lhe cobra, as forças policiais e os serviços de informação e espionagem. Quem garante que seu telefone não está grampeado? Suas mensagens eletrônicas não são captadas por terceiros?
O mais prudente é evitar ser transparente, sincero, bem humorado. Sua atitude pode ser interpretada como irreverência ou mesmo ameaça ao sistema.
Fuja de quem não se compara a você em classe, renda, cultura e cor da pele; dos olhos invejosos, da cobiça, do abraço de quem pretende enfiar-lhe a faca pelas costas.
Tenha medo da velhice. Ela é prenúncio da morte. Abomine o crescimento aritmético de sua idade. Jamais empregue o termo "velho”; quando muito, admita "idoso”.
Tema a gordura que lhe estufa as carnes, a ruga a despontar no rosto, a celulite na perna, o fio branco no cabelo. É horrível perder a juventude, a esbeltez, o corpo desejado!
Tenha medo da mais terrível inimiga: a morte. Ela se insinua quando você fica doente. Saiba que ninguém está interessado em sua saúde. Em seu bolso, sim. Basta adoecer para verificar como haverão de humilhá-lo os serviços médicos e os planos de saúde.
Não se mova! Por que viajar, abandonar o conforto doméstico e se arriscar num acidente de ônibus, navio ou avião? Nunca se sabe quando, onde e como os terroristas atacarão. Quem diria que numa bucólica ilha da pacífica Noruega o terror provocaria um genocídio?
Meu nome é medo. Acolha-me em sua vida! Sei que perderá a liberdade, a alegria de viver, o prazer de ser feliz. Mas darei a você o que mais anseia: segurança!
Em meus braços, você estará tão seguro quanto um defunto em seu caixão, a quem ninguém jamais poderá infligir nenhum mal, nem mesmo amedrontá-lo.

( Frei Betto)

Texto publicado em
http://www.adital.com.br/


terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Então era isso!


No mundo de tantos barulhos e ruídos, perde-se muito da comunicação pela falta de silêncio.

(Jung Mo Sung)